Parei observando, da janela, o homem que varria a calçada lá embaixo com seu uniforme de cores vibrantes e seu punho molhado pelo suor que secava da testa.
Ele assoviava e parecia varrer conforme a música que lembrava, sem deixar escapar um papelzinho de bala sequer. Parecia bastante perfeccionista, atento ao seu trabalho.
Ele não contava era com o início de um vento impertinente que fazia escapar de sua vassoura alguns dos lixinhos que até então unira com tanto cuidado. Ele sabe que tem muito chão pra limpar e por isso não se permite voltar e buscar o que o vento leva. Ainda que pretenda manter a perfeição de seu trabalho, ele tem certeza - e fica feliz com esta - de que irá passar outras vezes por tal rua e então a limpará novamente. É certo.
Nesse tempo, ao som do assovio despreocupado, fui colocando rostos nos lixinhos que escapavam com seus bigodes, barbas, marcas de trabalho, falta de dedinho, sem um dente, sem caráter, sem vergonha. Eles escapavam com a ajuda de ventos. Ventos impressos, encubados, ao vivo, com ou sem cores.
Antes que cogitasse me atirar de onde observava, sem medir a distância que me separava do chão, decidi fechar a janela como quem desliga a TV em noite de carnaval; como quem não se importa a quantas estão os preparativos para a Copa do Mundo em pleno ano eleitoral.
Fechei a janela como quem não quisesse ver o gari partir, com seu suor digno no rosto, tendo deixado o vento vencer e fazê-lo acreditar que ele terá uma nova chance de limpar toda aquela sujeira mesmo que ele só queira voltar àquela rua, sei lá... em 2014.
2 comentários:
e se aquele home não fosse o lixeiro. se fossem nossas consciencias limpando a dor, a fome, o egoismo...
Escreves muito bem!
Deixo aí, pra ti que curte jornalismo político, uns links bem interessantes.
http://www.cartamaior.com.br/templates/blogMostrar.cfm?blog_id=1&alterarHomeAtual=1
http://www.estrategiaeanalise.com.br/index.php
http://www.correiodopovo.com.br/opiniao/?blog=juremir%20machado%20da%20silva
cheers!
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